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sábado, 29 de outubro de 2011

Num recanto de uma sala junto a uma janela entreaberta


estou como se estivesse protegido por uma cúpula de folhagem

e escrevo não sobre a folha mas sobre a pedra azul do dia

e as minha palavras refletem o murmúrio do sol e a língua do vento

Talvez elas venham também de um fundo obscuro

procurar o espaço visível com a sua sede submersa

mas eu não conheço o que as move nem o seu alvo oscilante

No entanto a claridade da página é um álcool leve

que vai ardendo ao sopro da matéria

que vou vislumbrando em lentos movimentos

e assim vejo o vento ordenando-se como uma veia

porque a transparência é cega e o seu silêncio emudece-me.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Se há um ser que tudo vê ele não vê

Ninguém é o sósia ou o duplo de si porque ninguém encontra
o semelhante em si As figuras que ascendem
do magma interior são metáforas mutiladas
que perderam o elo com o objeto inacessível
que nunca aparece nem mesmo sob uma máscara

O eu oscila entre imagens sobre um solo enrugado
e a cada passo deixa atrás de si uma estátua de cinza
A identidade não encontra a densidade vertical
um silêncio irredutível envolve o indecifrável

Mas o ser deseja realizar a plena redondez
que é o seu próprio corpo e produzir a erecção do túmido cilindro
que consuma a lasciva plenitude
de um primeiro gozo em que ele é o amante e a cousa amada