Hoje à tarde nos encontraremos. E não te falarei sequer nisso que escrevo e que contém o que sou e que te dou de presente sem que o leias. Nunca lerás o que escrevo. E quando eu tiver anotado o meu segredo de ser – jogarei fora como se fosse ao mar. Escrevo-te porque não chegas a aceitar o que sou. Quando destruir minhas anotações de instantes, voltarei para o meu nada de onde tirei um tudo ? Tem que pagar o preço de quem tem um passado que só se renova com paixão no estranho presente. Quando penso no que já vivi me parece que fui deixando meus corpos pelos caminhos.
segunda-feira, 8 de março de 2010
quinta-feira, 4 de março de 2010
Diálogo literário
Para Donato, com amor.
- " A única salvação e derrota de Si é o Outro"
O encontro é um acontecimento sincrônico e ressonante : agendei um equívoco, fiquei vago. somente eu e uma lacuna (...) a intuição encontrou um foco e trouxe Clarice :
-" Para ser (ato falho) - vou ler ".
-" Para ser (ato falho) - vou ler ".
Título : AGUA VIVA ( achado nos fundos da estante antiga : a glória estava ali!)
Página zero :
"Tinha que existir uma pintura totalmente livre da dependência da figura- o objeto – que, como a música, não ilustra coisa alguma, não conta uma história e não lança um mito. Tal pintura contenta-se em evocar os reinos incomunicáveis do espírito, onde o sonho se torna pensamento, onde o traço se torna existência".
Página 7
(ela e eu)
É com aleluia tão profunda. É uma tal aleluia (adorá- la : a outra ). Aleluia, grito eu aleluia que se funde com o mais escuro uivo humano da dor de separação mas é grito de felicidade diabólica. Porque ninguém me prende mais. Continuo com capacidade de raciocínio - (que grande coisa! ) – já estudei matemática que é loucura do raciocínio (me dei mal: enlouqueci ? ) – mas agora quero o plasma (uníssonas) – quero me alimentar diretamente da placenta. Tenho um pouco de medo (desejo) : medo (desejo) ainda de me entregar pois o próximo instante é desconhecido (misterioso- incerto - ingovernável ). O próximo instante (a eternidade ) é feito por mim? Ou se faz sozinho? Fazemo-lo juntos com a respiração. E com uma desenvoltura de toureiro na arena. (olé!)
segunda-feira, 1 de março de 2010
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Torci os dedos sob a manta escura...
“Por que tão pálida?” ele indaga.
-Porque eu o fiz beber tanta amargura
Que o deixei bêbado de mágoa.
Como esquecer ? Ele saiu, sem reação,
A boca retorcida, em agonia ...
Desci, correndo, sem tocar o corrimão,
E o encontrei no portão, quando saía.
“É tudo brincadeira, por favor,
Não parta, eu morro se você se for.”
E ele, com um sorriso frio, isento,
Me disse apenas: “Não fique ao relento.”
(Ana Akhmátova , 1911)
Tradução : Augusto de Campos
“Por que tão pálida?” ele indaga.
-Porque eu o fiz beber tanta amargura
Que o deixei bêbado de mágoa.
Como esquecer ? Ele saiu, sem reação,
A boca retorcida, em agonia ...
Desci, correndo, sem tocar o corrimão,
E o encontrei no portão, quando saía.
“É tudo brincadeira, por favor,
Não parta, eu morro se você se for.”
E ele, com um sorriso frio, isento,
Me disse apenas: “Não fique ao relento.”
(Ana Akhmátova , 1911)
Tradução : Augusto de Campos
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
ISTCHÉRPIVAIUCHAIA CARTINA VIESNI
Listótchki.
Póslie strótchek lis-
tótchki.
(Maiakovski - 1913)
QUADRO COMPLETO DA PRIMAVERA
Folhinhas.
Linhas. Zibelinas só-
zinhas.
(Tradução de Augusto e Haroldo de Campos)
Póslie strótchek lis-
tótchki.
(Maiakovski - 1913)
QUADRO COMPLETO DA PRIMAVERA
Folhinhas.
Linhas. Zibelinas só-
zinhas.
(Tradução de Augusto e Haroldo de Campos)
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
- Mas nas suas viagens é impossível que você nunca tenha estado entre laranjeiras, sol e flores com abelhas. Não só o frio escuro mas também o resto ?
-Não, disse sombria. Essas coisas não são para mim. Sou mulher de cidade grande.
- (...) essas coisas são para todo mundo. É porque você não aprendeu a tê-las.
- E isso se aprende ? Laranjeiras, sol e abelhas nas flores ?
- Aprende-se quando já não se tem como guia forte a natureza de si próprio: (...) pode-se aprender tudo, inclusive a amar! E o mais estranho, pode-se aprender a ter alegria!
- Diga o que você quer que eu aprenda, disse ela com inesperada ironia. O Cântico dos Cânticos ?
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
UMA APRENDIZAGEM
OU O LIVRO DOS PRAZERES
A origem da Primavera
ou
A Morte Necessária em Pleno Dia
, (...)
Só que ela não queria ir de mãos vazias. E assim como se lhe levasse uma flor, ela escreveu num papel algumas palavras que lhe dessem prazer: “Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse casa dele, e é. Trata-se de um cavalo preto lustroso que apesar de inteiramente selvagem- pois nunca morou antes em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela- apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo : come às vezes na minha mão. Seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo o seu focinho. Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito. (...) Aviso que ele não tem nome: basta chamá-lo e se acerta com seu nome. Ou não se acerta, uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai. Se ele fareja e sente que um corpo-casa é livre ele trota sem ruídos e vai. Aviso também que não se deve temer o seu relinchar: a gente se engana e pensa que é a gente mesma que está relinchando de prazer ou cólera, a gente se assusta com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez.
(...) ia gostar, ia pensar que o cavalo era ela própria. Era ?
A origem da Primavera
ou
A Morte Necessária em Pleno Dia
, (...)
Só que ela não queria ir de mãos vazias. E assim como se lhe levasse uma flor, ela escreveu num papel algumas palavras que lhe dessem prazer: “Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse casa dele, e é. Trata-se de um cavalo preto lustroso que apesar de inteiramente selvagem- pois nunca morou antes em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela- apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo : come às vezes na minha mão. Seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo o seu focinho. Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito. (...) Aviso que ele não tem nome: basta chamá-lo e se acerta com seu nome. Ou não se acerta, uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai. Se ele fareja e sente que um corpo-casa é livre ele trota sem ruídos e vai. Aviso também que não se deve temer o seu relinchar: a gente se engana e pensa que é a gente mesma que está relinchando de prazer ou cólera, a gente se assusta com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez.
(...) ia gostar, ia pensar que o cavalo era ela própria. Era ?
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