quarta-feira, 14 de abril de 2010

O mar respira

 Ainda era plena a infância 
 em que  pressentia a desventura,
 a importância  da respiração .
Aquelas crianças são muitas:
são mulheres, são pássaros
(são bruxas),
foram galhos da mesma raiz
da minha história.

Com seu olhar de retrato
e as roupas de criança,
trançando passado e futuro,
desenharam o jardim
das improváveis memórias.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Aqui não se fazem memórias: aqui se trama a arte. Esta não é apenas a minha voz, mas a de muitas águas. Aqui não se organiza simplesmente um livro: aqui se fala de encantamentos. Quem não os aprecia, não deve me ler.

segunda-feira, 8 de março de 2010


Hoje à tarde nos encontraremos. E não te falarei sequer nisso que escrevo e que contém o que sou e que te dou de presente sem que o leias. Nunca lerás o que escrevo. E quando eu tiver anotado o meu segredo de ser – jogarei fora como se fosse ao mar. Escrevo-te porque não chegas a aceitar o que sou. Quando destruir minhas anotações de instantes, voltarei para o meu nada de onde tirei um tudo ? Tem que pagar o preço de quem tem um passado que só se renova com paixão no estranho presente. Quando penso no que já vivi me parece que fui deixando meus corpos pelos caminhos.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Diálogo literário


Para Donato, com amor.
- " A única salvação e derrota de Si é o Outro"


O encontro é um acontecimento sincrônico e ressonante : agendei um equívoco, fiquei vago. somente eu e uma lacuna (...)   a intuição  encontrou  um   foco  e  trouxe  Clarice :
 -"  Para ser (ato falho)vou ler ".

 Título : AGUA VIVA ( achado nos fundos da estante antiga : a glória estava ali!)

Página zero :

"Tinha que existir uma pintura totalmente livre da dependência da figura- o objeto – que, como a música, não ilustra coisa alguma, não conta uma história e não lança um mito. Tal pintura contenta-se em evocar os reinos incomunicáveis do espírito, onde o sonho se torna pensamento, onde o traço se torna existência".

 (Michel Seuphor)

Página 7

 (ela e eu)

É com aleluia tão profunda. É uma tal aleluia (adorá- la : a outra ). Aleluia, grito eu  aleluia que se funde com o mais escuro uivo humano da dor de separação mas é grito de felicidade diabólica. Porque ninguém me prende mais. Continuo com capacidade de raciocínio - (que grande coisa! ) – já estudei matemática que é loucura do raciocínio (me dei mal: enlouqueci ? ) – mas agora quero o plasma (uníssonas) – quero me alimentar diretamente da placenta. Tenho um pouco de medo (desejo) : medo (desejo) ainda de me entregar pois o próximo instante é desconhecido (misterioso- incerto - ingovernável ). O próximo instante  (a eternidade ) é feito por mim? Ou se faz sozinho? Fazemo-lo juntos com a respiração. E com uma desenvoltura de toureiro na arena. (olé!)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Torci os dedos sob a manta escura...
“Por que tão pálida?” ele indaga.
-Porque eu o fiz beber tanta amargura
Que o deixei bêbado de mágoa.

Como esquecer ? Ele saiu, sem reação,
A boca retorcida, em agonia ...
Desci, correndo, sem tocar o corrimão,
E o encontrei no portão, quando saía.

“É tudo brincadeira, por favor,
Não parta, eu morro se você se for.”
E ele, com um sorriso frio, isento,
Me disse apenas: “Não fique ao relento.”

(Ana Akhmátova , 1911)
Tradução : Augusto de Campos

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

ISTCHÉRPIVAIUCHAIA CARTINA VIESNI

Listótchki.
Póslie strótchek lis-
tótchki.

(Maiakovski - 1913)

QUADRO COMPLETO DA PRIMAVERA

Folhinhas.
Linhas. Zibelinas só-
zinhas.

(Tradução de Augusto e Haroldo de Campos)