Cap. VI- O Equilíbrio
I- Honra versus Amor
Na realização do seu desejo, o amante radical renuncia corajosamente ao mundo com seus valores de honra, justiça, lealdade, prudência. Para o cavaleiro e a sua dama do mundo , entretanto, a finalidade mística de pleno êxtase não é – e nunca foi – o ideal de uma vida nobre; e na França dos séculos XII e XIII nem sequer se aproximava do ideal de amor cortês.
Como assinalou uma das críticas mais argutas dessa literatura, Madame Myrrha Lot-Barodine : “Não foram os trovadores franceses que conceberam esse tipo de paixão ardente, cega e absoluta. A rajada de desordem que exala nos poemas de Tristão , dificilmente sugere a fragrância suave do delicado perfume da cortesia francesa, “
Assim sendo, parece mais do que apropriado voltar a olhar para a antiga lenda irlandesa da “marca do amor” de Diarmuid O´Duibhne. Porque é nela que aparecem os primeiros vestígios da fonte, não apenas da magia do amor e dos temas florestais, como também do ferimento causado pelo javali na coxa de Tristão e, portanto, de sua relação com o deus morto pelo javali e o rei-herói do antigo complexo megalítico do deus –porco: o filho, o consorte e amante, eternamente morrendo e ressuscitando, da rainha-deusa do Universo- Damuzi- Osíris- Adônis.
(...)
III- Ironia Erótica
Até aqui, muito bem; lemos e escutamos : o artista sempre se compadece um pouco de si mesmo, tem experiências dolorosas e responde com a seta da palavra, bem elaborada, bem dirigida. Porém, com que finalidade? Para matar?
O autor tem mais a dizer:
“O intelectual, o homem de espírito tem a alternativa de trabalhar a partir do irônico ou do radical. (...) Decorre de qual das alegações pareça-lhe a definitiva, absoluta e decisiva : a da Vida ou a do Espírito (como Verdade). Para o radical , a Vida não é o argumento prioritário. Assim falam todas as formas de radicalismo (pereat mundus et vita!). Ao contrário, a fórmula da ironia diz : “É a Verdade prioritária - quando a questão é a Vida? “O radicalismo é niilismo. A disposição irônica é conservadora. Entretanto o conservadorismo só é irônico quando não representa a voz da vida falando por si mesma, porém a voz do espírito falando pela vida.
Aqui é Eros que se apresenta, o amor definido como “a afirmação de um indivíduo, independente de seu valor”. Ora, essa não é uma afirmação muito espiritual nem muito moral e, de fato, a afirmação da vida pelo espírito também é pouco moral. É irônica. Eros sempre foi irônico. A ironia é erótica.
E é isso que torna a arte tão digna de nosso amor e merecedora de nossa prática, essa maravilhosa contradição, que é- ou, ao menos, pode ser- simultaneamente um repouso e uma crítica, uma celebração e uma recompensa da vida por sua gratificante imitação e, ao mesmo tempo, uma aniquilação moralmente crítica da vida cujo efeito é o despertar do prazer e da consciência no mesmo grau (...) que seja ao mesmo tempo conservadora e radical; isto é, de seu lugar mediato e mediador entre o espírito e a vida. Que é a fonte de onde nasce a própria ironia.
(Thomas Mann)
VIII- A ferida de Amfortas
Nas palavras do grande orientalista, o Professor Hans Heinrich Schaeder (1896-1957):
“(...) O exercício do poder é regido sempre pela lei da intensificação, pela ganância desmedida. Não tem moderação; a medida somente chega do exterior, de forças contrárias que o restringem . A história é , portanto, a interação do poder- seu estabelecimento, sustentação e desenvolvimento-, de um lado , e essas forças opostas, de outro. Estas receberam nomes distintos, sendo o mais simples e inclusivo : amor.
I- Honra versus Amor
Na realização do seu desejo, o amante radical renuncia corajosamente ao mundo com seus valores de honra, justiça, lealdade, prudência. Para o cavaleiro e a sua dama do mundo , entretanto, a finalidade mística de pleno êxtase não é – e nunca foi – o ideal de uma vida nobre; e na França dos séculos XII e XIII nem sequer se aproximava do ideal de amor cortês.
Como assinalou uma das críticas mais argutas dessa literatura, Madame Myrrha Lot-Barodine : “Não foram os trovadores franceses que conceberam esse tipo de paixão ardente, cega e absoluta. A rajada de desordem que exala nos poemas de Tristão , dificilmente sugere a fragrância suave do delicado perfume da cortesia francesa, “
Assim sendo, parece mais do que apropriado voltar a olhar para a antiga lenda irlandesa da “marca do amor” de Diarmuid O´Duibhne. Porque é nela que aparecem os primeiros vestígios da fonte, não apenas da magia do amor e dos temas florestais, como também do ferimento causado pelo javali na coxa de Tristão e, portanto, de sua relação com o deus morto pelo javali e o rei-herói do antigo complexo megalítico do deus –porco: o filho, o consorte e amante, eternamente morrendo e ressuscitando, da rainha-deusa do Universo- Damuzi- Osíris- Adônis.
(...)
III- Ironia Erótica
Até aqui, muito bem; lemos e escutamos : o artista sempre se compadece um pouco de si mesmo, tem experiências dolorosas e responde com a seta da palavra, bem elaborada, bem dirigida. Porém, com que finalidade? Para matar?
O autor tem mais a dizer:
“O intelectual, o homem de espírito tem a alternativa de trabalhar a partir do irônico ou do radical. (...) Decorre de qual das alegações pareça-lhe a definitiva, absoluta e decisiva : a da Vida ou a do Espírito (como Verdade). Para o radical , a Vida não é o argumento prioritário. Assim falam todas as formas de radicalismo (pereat mundus et vita!). Ao contrário, a fórmula da ironia diz : “É a Verdade prioritária - quando a questão é a Vida? “O radicalismo é niilismo. A disposição irônica é conservadora. Entretanto o conservadorismo só é irônico quando não representa a voz da vida falando por si mesma, porém a voz do espírito falando pela vida.
Aqui é Eros que se apresenta, o amor definido como “a afirmação de um indivíduo, independente de seu valor”. Ora, essa não é uma afirmação muito espiritual nem muito moral e, de fato, a afirmação da vida pelo espírito também é pouco moral. É irônica. Eros sempre foi irônico. A ironia é erótica.
E é isso que torna a arte tão digna de nosso amor e merecedora de nossa prática, essa maravilhosa contradição, que é- ou, ao menos, pode ser- simultaneamente um repouso e uma crítica, uma celebração e uma recompensa da vida por sua gratificante imitação e, ao mesmo tempo, uma aniquilação moralmente crítica da vida cujo efeito é o despertar do prazer e da consciência no mesmo grau (...) que seja ao mesmo tempo conservadora e radical; isto é, de seu lugar mediato e mediador entre o espírito e a vida. Que é a fonte de onde nasce a própria ironia.
(Thomas Mann)
VIII- A ferida de Amfortas
Nas palavras do grande orientalista, o Professor Hans Heinrich Schaeder (1896-1957):
“(...) O exercício do poder é regido sempre pela lei da intensificação, pela ganância desmedida. Não tem moderação; a medida somente chega do exterior, de forças contrárias que o restringem . A história é , portanto, a interação do poder- seu estabelecimento, sustentação e desenvolvimento-, de um lado , e essas forças opostas, de outro. Estas receberam nomes distintos, sendo o mais simples e inclusivo : amor.
A Terra Desolada, podemos dizer então, é qualquer mundo em que a Força e não o Amor , a doutrinação e não a educação, a autoridade e não a experiência, prevalecem na organização das vidas, e onde os mitos e ritos observados e aceitos não guardam, portanto, nenhuma relação com as verdadeiras experiências, necessidades e potencialidades interiores daquele que os aceitam."
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