terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Torci os dedos sob a manta escura...
“Por que tão pálida?” ele indaga.
-Porque eu o fiz beber tanta amargura
Que o deixei bêbado de mágoa.

Como esquecer ? Ele saiu, sem reação,
A boca retorcida, em agonia ...
Desci, correndo, sem tocar o corrimão,
E o encontrei no portão, quando saía.

“É tudo brincadeira, por favor,
Não parta, eu morro se você se for.”
E ele, com um sorriso frio, isento,
Me disse apenas: “Não fique ao relento.”

(Ana Akhmátova , 1911)
Tradução : Augusto de Campos

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

ISTCHÉRPIVAIUCHAIA CARTINA VIESNI

Listótchki.
Póslie strótchek lis-
tótchki.

(Maiakovski - 1913)

QUADRO COMPLETO DA PRIMAVERA

Folhinhas.
Linhas. Zibelinas só-
zinhas.

(Tradução de Augusto e Haroldo de Campos)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010



- Mas nas suas viagens é impossível que você nunca tenha estado entre laranjeiras, sol e flores com abelhas. Não só o frio escuro mas também o resto ?

-Não, disse sombria. Essas coisas não são para mim. Sou mulher de cidade grande.

- (...) essas coisas são para todo mundo. É porque você não aprendeu a tê-las.

- E isso se aprende ? Laranjeiras, sol e abelhas nas flores ?

- Aprende-se quando já não se tem como guia forte a natureza de si próprio: (...) pode-se aprender tudo, inclusive a amar! E o mais estranho, pode-se aprender a ter alegria!

- Diga o que você quer que eu aprenda, disse ela com inesperada ironia. O Cântico dos Cânticos ?

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

UMA APRENDIZAGEM

OU O LIVRO DOS PRAZERES

A origem da Primavera
ou
A Morte Necessária em Pleno Dia

, (...)

Só que ela não queria ir de mãos vazias. E assim como se lhe levasse uma flor, ela escreveu num papel algumas palavras que lhe dessem prazer: “Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse casa dele, e é. Trata-se de um cavalo preto lustroso que apesar de inteiramente selvagem- pois nunca morou antes em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela- apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo : come às vezes na minha mão. Seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo o seu focinho. Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito. (...) Aviso que ele não tem nome: basta chamá-lo e se acerta com seu nome. Ou não se acerta, uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai. Se ele fareja e sente que um corpo-casa é livre ele trota sem ruídos e vai. Aviso também que não se deve temer o seu relinchar: a gente se engana e pensa que é a gente mesma que está relinchando de prazer ou cólera, a gente se assusta com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez.
(...) ia gostar, ia pensar que o cavalo era ela própria. Era ?

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Eu que não sei quase nada do mar



Garimpeira da beleza
Te achei na beira de você me achar
Me agarra na cintura, me segura e jura que não vai soltar
E vem me bebendo toda, me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meus seios, mar partindo ao meio
Não vou esquecer

Eu que não sei quase nada do mar
Descobri que não sei nada de mim

Clara, noite rara, nos levando além
da arrebentação
Já não tenho medo de saber quem somos
na escuridão

Me agarrei nos seus cabelos
Sua boca quente pra não me afogar
Tua língua correnteza lambe minhas pernas
Como faz o mar
E vem me bebendo toda, me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meus seios, mar partindo ao meio
Não vou esquecer

Eu que não sei quase nada do mar
Descobri que não sei nada de mim

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Depois das loucuras simultâneas, Lacan se interessou pelos distúrbios da linguagem escrita ao apresentar ainda um caso de paranóia feminina . (...) Tratava-se de uma certa Marcelle, (...) que se considerava Joana d´Arc e queria regenerar a França. Ela julgava que seus escritos tinham um valor revolucionário : "Faço evoluir a língua", "é preciso sacudir todas essas velhas formas" (...). Eis uma amostra de seus escritos "inspirados":
Paris, aos 14 de maio de 1931. Sr. Presidente da República (...) em em vilegiatura nos pães-de-mel e nos trovadoces, Sr. Presidente da República invadida de zelo, Gostaria de tudo saber para vos fazer o mais camundongo logo poltrão e canhão de prova mas estou demasiado longe para adivinhar. Maldades que se fazem aos outros convém adivinhar que meus cinco gansos de Vals são descompostura e que sois o bobão da Santa Virgem e de perdão literário. Mas é preciso tudo reduzir da nomenclatura de Alvergne pois sem lavar as mãos em água de rocha se faz mijadura em leito seco e madalana é sem trair a putinha de todos esses de fresca barba por ser o melhor de suas oraies n a voz é doce e a pele fresca. Gostaria de ter amaldiçoado tougnate sem causar o prejuízo de vida plenária e sem custo se faz polícia judiciária. Mas é preciso espantar o mundo por ser o velhaco maldito de barbaranela e sem leito se faz tougnate.