quinta-feira, 13 de maio de 2010

4- Montanhas Eternas

“por amor ao mundo e para conformar os corações nobres, àqueles a quem eu prezo e aos que o meu coração sente-se atraído. Não estou me referindo ao mundo comum daqueles que (como ouvi dizer) são incapazes de suportar o sofrimento e desejam apenas viver da graça. (que Deus os permita viver na graça!) Desse mundo e do modo de vida destes, a minha história não trata : a vida deles e a minha estão distantes. É outro o mundo que tenho em mente, ele comporta num mesmo coração sua doçura amarga, seu precioso sofrimento, seu prazer espiritual, e sua dor anelante, sua vida grata e sua morte. É a esse mundo que desejo pertencer, para ser condenado ou para ser salvo por ele.” (Tristão – Gottfried von Strassburg, 1210).

(...)

há uma a acentuada linha de ascendência do Tristão de Gottfried até James Joyce (1882- 1941) e Thomas Man (1875- 1955), marcando em ritmo compassado , as mesmas etapas, data por data :

- 1903- Thomas Man

-1916- Um retrato do artista quando jovem- James Joyce

(tratam da separação de um jovem do contexto social de seu nascimento para buscar um destino pessoal , (...) cada qual resolvendo o seu dilema em um momento de intuição inspiradora

- 1922- Ulisses, James Joyce

-1924- A montanha mágica

(dois relatos de busca de um princípio fundamental revelador da existência em meio a uma mistura de critérios da civilização moderna.)

(...) porém não vou antecipar aqui as aventuras dessas páginas, alem de apontar que nos deteremos sobre o mistério do momento de arrebatamento estético , quando a possibilidade de uma vida como aventura abre-se a mente (...) depois o processo de criação de certos mestres , dedicados ao mesmo continuum de temas do nosso passado mais antigo e obscuro que, muito recentemente , foi posto a ferver no caldeirão de Finnegans Wake.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

As Máscaras de Deus

MITOLOGIA CRIATIVA (VOLUME 4)


PARTE I- A ANTIGA VIDEIRA

Cap. I- Experiência e autoridade

1)- Simbolização criativa

Nos volumes anteriores deste estudo sobre as transformações históricas daquelas formas imaginárias que chamo de “máscaras” de Deus (...) os mitos e ritos dos antigos mundos primitivo, oriental e ocidental (...)

(...) em nossa cultura ocidental recente (metade do sec. XII) uma crescente desintegração vem desmantelando a tradição ortodoxa (...). Com seu declínio irromperam as forças criativas liberadas por um grande grupo de destacados indivíduos, de maneira que (...) uma galáxia de mitologias (...).

(...) um tipo totalmente novo de revelação não-teológica, de grande alcance, profundidade e infinita variedade tornou-se o verdadeiro guia espiritual e força estruturante de uma civilização.

No contexto de uma mitologia tradicional os símbolos apresentam-se em ritos socialmente preservados (...) No que chamo “mitologia criativa” – essa ordem se inverte. O indivíduo tem uma experiência própria- de ordem, horror, beleza- que procura transmitir mediante sinais; e se sua vivência teve alguma profundidade e significado , sua comunicação terá o valor e a força de um mito vivo.

A primeira função da mitologia é reconciliar nossa consciência que desperta com o mysterium tremendum et fascinans deste Universo como ele é. A segunda é apresentar uma imagem interpretativa total do mesmo (...) é a revelação para a consciência dos poderes da sua própria fonte mantenedora. A terceira função, entretanto, é a imposição de uma ordem moral (...). A quarta função (mais crítica e vital) é auxiliar o indivíduo a encontrar seu centro e desenvolver-se integralmente em consonância (...) consigo, cultura, Universo e com aquele terrível e último mistério que está tanto fora, como dentro de si mesmo e de todas as coisas.

A mitologia criativa (...) “para mostrar à virtude a sua própria expressão; ao ridículo a sua própria imagem e a cada época e geração a sua própria esfígie. (...) provém da intuição sentimentos, pensamentos e visão de um indivíduo leal à sua própria experiência e valores. Dessa maneira ela reorienta a autoridade mantendo as formas que produziram e deixaram para trás vidas já vividas. Renovando o ato da própria experiência, resgata para a existência a qualidade de aventura, a uma só vez , descobrindo e reintegrando o estabelecido, o já conhecido, no fogo criativo desse algo em gestação constante, que não é senão a vida, (...) mas como ela é , em profundidade, em processo aqui e agora, dentro e fora.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

O mar respira

 Ainda era plena a infância 
 em que  pressentia a desventura,
 a importância  da respiração .
Aquelas crianças são muitas:
são mulheres, são pássaros
(são bruxas),
foram galhos da mesma raiz
da minha história.

Com seu olhar de retrato
e as roupas de criança,
trançando passado e futuro,
desenharam o jardim
das improváveis memórias.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Aqui não se fazem memórias: aqui se trama a arte. Esta não é apenas a minha voz, mas a de muitas águas. Aqui não se organiza simplesmente um livro: aqui se fala de encantamentos. Quem não os aprecia, não deve me ler.

segunda-feira, 8 de março de 2010


Hoje à tarde nos encontraremos. E não te falarei sequer nisso que escrevo e que contém o que sou e que te dou de presente sem que o leias. Nunca lerás o que escrevo. E quando eu tiver anotado o meu segredo de ser – jogarei fora como se fosse ao mar. Escrevo-te porque não chegas a aceitar o que sou. Quando destruir minhas anotações de instantes, voltarei para o meu nada de onde tirei um tudo ? Tem que pagar o preço de quem tem um passado que só se renova com paixão no estranho presente. Quando penso no que já vivi me parece que fui deixando meus corpos pelos caminhos.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Diálogo literário


Para Donato, com amor.
- " A única salvação e derrota de Si é o Outro"


O encontro é um acontecimento sincrônico e ressonante : agendei um equívoco, fiquei vago. somente eu e uma lacuna (...)   a intuição  encontrou  um   foco  e  trouxe  Clarice :
 -"  Para ser (ato falho) -  vou ler ".

 Título : AGUA VIVA ( achado nos fundos da estante antiga : a glória estava ali!)

Página zero :

"Tinha que existir uma pintura totalmente livre da dependência da figura- o objeto – que, como a música, não ilustra coisa alguma, não conta uma história e não lança um mito. Tal pintura contenta-se em evocar os reinos incomunicáveis do espírito, onde o sonho se torna pensamento, onde o traço se torna existência".

 (Michel Seuphor)

Página 7

 (ela e eu)

É com aleluia tão profunda. É uma tal aleluia (adorá- la : a outra ). Aleluia, grito eu  aleluia que se funde com o mais escuro uivo humano da dor de separação mas é grito de felicidade diabólica. Porque ninguém me prende mais. Continuo com capacidade de raciocínio - (que grande coisa! ) – já estudei matemática que é loucura do raciocínio (me dei mal: enlouqueci ? ) – mas agora quero o plasma (uníssonas) – quero me alimentar diretamente da placenta. Tenho um pouco de medo (desejo) : medo (desejo) ainda de me entregar pois o próximo instante é desconhecido (misterioso- incerto - ingovernável ). O próximo instante  (a eternidade ) é feito por mim? Ou se faz sozinho? Fazemo-lo juntos com a respiração. E com uma desenvoltura de toureiro na arena. (olé!)