sábado, 17 de outubro de 2009

PROBLEMAS DO CONHECIMENTO E DA LIBERDADE.


NOAM CHOMSKY

Mas a gratidão pode ser compartilhada por todos aqueles que valorizam a razão, a liberdade e a justiça, e que são cativados pela visão de Russell tem do “mundo que todos devemos buscar”:

“um mundo em que o espírito criativo está vivo, no qual a vida é uma aventura cheia de esperança e de alegria, baseada no impulso de construir e não no desejo de reter o que se possui ou de tomar o que outros possuem. Deve ser um mundo em que os afetos tenham livre curso, no qual o amor seja purgado do desejo de dominação e a crueldade e a inveja tenham sido dissipadas pela felicidade e pelo desenvolvimento sem entraves de todos os instintos que erguem a vida e a preenchem com os prazeres da mente.”


1) INTERPRETAR O MUNDO

Ele propôs que os limites do conhecimento humano são determinados pelas regras que limitam as hipóteses admissíveis, que poderiam ser concebidas como bastante restritivas . Trata-se de uma idéia perfeitamente inteligível.

A imagem de uma mente, inicialmente irrestrita, desencadeada livremente em direções arbitrárias, pode sugerir, em princípio , uma visão mais rica e esperançosa da liberdade e da criatividade humanas. Mas acho que essa conclusão está errada. Russel estava certo em intitular seus estudos em “ Human Knowledge : its scope and limits” (O conhecimento humano: seu escopo e limites). Os princípios da mente fornece os escopos e os limites da criatividade humana. Sem esses princípios, a compreensão científica e os atos criativos não seriam possíveis. Se todas as hipóteses são inicialmente equivalentes, então nenhuma compreensão científica pode ser atingida, pois não haverá meios de selecionar, dentro de um vasto arranjo, teorias compatíveis com nossa evidência empírica limitada e, por hipótese, igualmente acessíveis à mente.

Alguém que abandona todas as formas, todas as condições e restrições, e age de maneira aleatória e inteiramente à vontade, com certeza não está engajado em uma criação artística, seja lá o que ele possa estar fazendo. “O espírito da poesia, como todos os poderes vivos, deve necessariamente circunscrever-se a regras”
Coleridge escreveu : “talvez às leis de sua própria origem” Como Russel frequentemente expressava , “ se a verdadeira vida” do homem consiste “ em Arte e Pensamento e Amor, na criação e contemplação do belo e na compreensão científica do mundo” . Se isto é “a verdadeira glória do homem” , então são os princípios intrínsecos da mente que deveriam ser o objeto de nosso espanto e, se possível, das nossas investigações. Ao investigarmos algumas das mais conhecidas realizações da inteligência humana, o uso da linguagem, por exemplo, somos imediatamente tocados pelo caráter criativo delas, pelo caráter de criação livre dentro de um sistema de regras. Russel escreveu que “a concepção humanística considera uma criança como um jardineiro considera uma árvore jovem, isto é, como algo com uma certa natureza intrínseca, que se desenvolverá adquirindo uma forma admirável , uma vez conferido solo apropriado, ar e luz”.
Acho bastante justo dizer que é a concepção humanística do homem que tem avançado e conseguido ganhar substância à medida que descobrimos os ricos sistemas de estruturas , invariantes e princípios subjacentes às realizações humanas mais humildes.

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