domingo, 16 de maio de 2010

CAPITULO 2 – O MUNDO TRANSFORMADO

I)- A VIA DO AMOR NOBRE

Um homem, uma mulher,uma mulher, um homem
Tristão Isolda, Isolda Tristão.

“Quanto mais se aviva o fogo da chama do amor” – escreveu o poeta Gottfried , “mais imperativo é o desvario de quem ama. Mas esse sofrimento é tão pleno de amor, essa ansiedade tão encorajadora, que nenhum coração nobre a dispensaria depois de ter sido assim encorajado.”

“ Tenho tanta certeza disso quanto a da minha morte”- (ele escreve) – “ pois aprendi com a própria aflição : o amante nobre ama histórias de amor. Qualquer um que anseie por tais histórias não precisa ir longe, pois eu lhes contarei histórias de amantes nobres que deram provas de puro amor : ele apaixonado, ela apaixonada.”

(...)

O herói céltico , movido por uma graça natural infalível, segue sem medo os impulsos de seu coração . E embora esses possam prometer apenas sofrimento e dor, perigo e desastre- quando seguidos espontaneamente eles são (...) sentidos como oferecendo à existência , se não a luz da vida eterna, ao menos integridade e verdade.

(...)

E para tornar evidente que reconhecia esse grave desafio, o poeta descreveu a gruta do amor, onde os amantes se refugiam do matrimônio sacramentado, como uma capela no coração da natureza :

A gruta fora escavada em tempos pagãos na montanha erma. Ali eles tinham o hábito de se esconder quando desejavam privacidade para fazer amor. Na verdade, onde quer que essa tal gruta fosse encontrada, ela era fechada como uma porta de bronze, e consagrada ao amor, com a inscrição : “ – a gruta para pessoas apaixonadas”.

(...)

Gottfried explica em detalhes a alegoria dessas formas :

O interior circular é Simplicidade no Amor, porque a Simplicidade é o que mais convém para o amor, que não pode suportar quaisquer arestas. No Amor, a malícia e a astúcia são as arestas. A amplitude é o Poder do Amor. É infinito. A altura significa Aspiração, que se eleve em direção às nuvens (...)

As parede da gruta é branca, lisa e reta: a essência da Integridade. Seu brilho uniformemente branco, jamais pode ser colorido; como tampouco qualquer tipo de Suspeita deve ser capaz de encontrar ali abrigo. O piso de mármore é a Constância, em seu verdor e dureza, (...) O leito cristalino do Amor nobre , no centro, foi devidamente consagrado ao nome da Deusa e o artesão, que entalhou o cristal, reconhecera a sua finalidade: Porque o Amor, de fato, deve ser cristalino, transparente e translúcido.

Dentro da gruta, travando a porta de bronze, havia duas barras; e também uma aldrava interna, engenhosamente colocada na parede- exatamente onde Tristão a encontrara. Uma pequena alavanca a controlava, que passava de fora para dentro e a movia de um lado para outro. Além disso, não havia nem fechadura nem chave; e vou dizer-lhes por que.

Não havia fechadura porque qualquer mecanismo que fosse colocado do lado de fora da porta, para fazê-la abrir ou fechar, significaria Traição. Porque, se alguém entra pela porta do Amor quando não foi admitido de dentro, isso não pode ser considerado Amor : é Engodo ou Violência. A porta do Amor está ali- porta do Amor de bronze- para impedir a entrada de qualquer um que não seja por Amor ; e ela é de bronze para que não possibilite a entrada de alguém por nenhum artifício, seja por meio da violência ou da força, esperteza ou perícia , traição ou mentiras. Além do mais, as duas barras , as duas barras no interior, os dois selos do Amor, estão voltados um para a outra. Uma é de cedro , a outra é de marfim. E agora sabereis o seu significado.


A barra de cedro indica a Compreensão e a Razão do Amor ; o marfim, a sua Modéstia e Pureza. E esses dois selos, essas duas barras castas, guardam a morada do Amor a salvo da Traição e da Violência.

A pequena alavanca secreta colocada na aldrava a partir fora, era uma maneta de estanho, e a aldrava- como deve ser- de ouro. A aldrava e a alavanca, isto e aquilo: tampouco poderiam ser mais bem escolhidas por suas qualidades. Porque o estanho é Esforço Suave em relação a uma esperança secreta, enquanto o ouro é a Consumação. Cada um pode dirigir seu próprio esforço de acordo com a sua vontade : de maneira limitada ou ampla, resumida ou extensamente, de maneira liberal ou estrita, de todas as maneiras possíveis. Mas se alguém então, com a devida suavidade, considerar a natureza do Amor, sua alavanca de estanho, essa coisa humilde, o levará ao sucesso dourado e, depois, a aventuras prazerosas.


E agora, aquelas pequenas janelas no alto da gruta, habilmente escavadas diretamente na rocha, permitiam entrar o brilho do sol. A primeira é a Cordialidade, a segunda a Humildade e a última a Distinção; e através das três , sorria a luz suave daquele esplendor abençoado, a Honra, que de todas as luzes é a que melhor ilumina nossa gruta de aventura terrena.


E finalmente, é também significativo que a gruta esteja isolada num ermo. A interpretação deve ser que as oportunidades de Amor não se encontram nas ruas nem em campos abertos. Ela oculta-se em espaços selvagens. E o caminho até o seu refúgio é penoso e austero. Por todas as partes há montanhas, com muitos desvios, aqui e ali. As trilhas sobem e descem. As rochas nos martirizam, obstruindo o caminho . Não importa o quanto nos mantemos na trilha certa, se errarmos um único passo, jamais saberemos regressar. Mas quem tiver a boa sorte de penetrar naquele ermo, obterá ditosa recompensa. Pois encontrará ali, deleites para o seu coração. O ermo está abarrotado de tudo o que o seu ouvido deseja ouvir e do que agrada a sua vista; de maneira que ninguém desejaria estar em outro lugar. E isso eu sei muito bem, pois já estive lá. As pequenas janelas pelas quais o sol penetra, enviaram com frequência seus raios ao meu coração.

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