quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A viagem

Impossível explicar. Afastava-se aos poucos daquela zona onde as coisas têm forma fixa e arestas, onde tudo tem um nome sólido e imutável (...)
De profundis? Alguma coisa queria falar... De profundis... Ouvir-se! prender a fugaz oportunidade que dançava com os pés leves à beira do abismo. De profundis. Fechar as portas da consciência. (...) De profundis. Vejo um sonho que tive : palco escuro, abandonado atrás de uma escada. Mas no momento em que penso : "palco escuro" em palavras , o sonho se esgota e fica o casulo vazio. (...)
De profundis. Deus meu eu vos espero, deus vinde a mim, deus, brotai no meu peito, eu não sou nada e a desgraça cai sobre a minha cabeça e eu só sei usar palavras e as palavras são mentirosas e eu continuo a sofrer, afinal o fio sobre a parede escura.(...) deus vinde a mim , eu não sou nada eu sou menos que o pó e eu te espero todos os dias e todas as noites, ajudai-me, eu só tenho uma vida e essa vida escorre pelos meus dedos e encaminha-se para a morte serenamente e eu nada posso fazer e apenas assisto ao meu esgotamento a cada minuto que passa, sou só no mundo, quem me quer não me conhece me teme e eu sou pequena e pobre (...)

O que nela se elevava não era a coragem, ela era substância apenas (...) ela existia e o que havia dentro dela eram movimentos erguendo-a sempre em transição. Talvez tivesse alguma vez modificado com sua força selvagem o ar ao seu redor e ninguém nunca o perceberia, talvez tivesse inventado com sua respiração uma nova matéria e não o sabia (...) um dia virá em que todo o movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, eu serei forte como a alma de um animal (...) não haverá espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante (...) serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá o meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.

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