sábado, 24 de outubro de 2009



Goi, goi, pai coração de boi, pão pão Joana de Ruão, goi, goi, o pai não sabe o que de dentro de mim é, eu sou três, perfeito querubim (...), eu sou criança de muito entendimento, de muita verdade, de muita poesia (...) o que vale é a poesia e não tratados, o que vale é a planície doirada, o vale cor de beterraba, o que vale é o três dentro de mim, noiteaurora, pombamora, branco e vermelho dentro de mim, pai tristeza que não me quer querubim (...) goi, goi, alecrim, goi goi espigão, goi goi roseiralmirim. (...)
Amor feito de vísceras , de matérias várias, de mel, amo tudo o que pode ser, amo o que é, amodeio tudo o que pode e é. Louvado seja esse bem-estar de assim ser, louvado seja o meu dorso estriado, minhas misérias, glórias de outro, a expectativa de vinganças, abrindo o poço para que eu desapareça, coisa muito a seu gosto, com a clarabóia escancarada para que eu resolva voar, para que eu resolva assumir o ser da cigarra, saindo pela clarabóia e morrendo depois transparência, rigidez acetinada, glória a todos esses que cantam até a morte : glória.
(...)
Ai, goi goi, se é verdade que o amor vincit omnia
(...)
Quero lhes contar do meu ser a três, mas é tão difícil, goi goi, é ser de um jeito inteiriço, cheio de realeza, é ser casto e despudorado, é um ser que vocês só conheceriam num vir a ser, é como explicar à crisálida que ela é casulo agora e depois alvorada, é como explicar o vir a ser de um ser que só se sabe no AGORA, ai, como explicar o DEPOIS de um ser que só se sabe no instante ?

Goi goi, estão vendo que esforço faz a minha lingüinha para dizer dos mistérios ? !

domingo, 18 de outubro de 2009


2- MUDAR O MUNDO

Na conclusão de minha primeira conferência citei que “a concepção humanística considera uma criança (...)” Em outro momento, ele foi além desenvolvendo essa imagem observando que “ o solo e a liberdade requeridos para o crescimento de um homem são incomensuravelmente mais difíceis de se descobrir e se obter. .. e o completo crescimento que pode ser esperado, não pode ser definido ou demonstrado; ele é sutil e complexo, só pode ser sentido através de uma intuição delicada e vagamente apreendido pela imaginação e pelo respeito. (...)

“A educação deveria ser guiada pelo espírito de reverência , por algo sagrado indefinível , ilimitado , algo individual e estranhamente precioso, o princípio crescente da vida, um fragmento encarnado do obstinado esforço do mundo”.

Wilhelm von Humboldt :

toda cultura brota única e imediatamente da vida interior da alma e só pode ser estimulada a partir da natureza humana, e nunca produzida por maquinações externas artificiais.... o que quer que não brote da livre escolha do homem, não penetra em seu Ser mais profundo, mas ainda permanece estranho a sua verdadeira natureza. Nesse caso, o homem não atua movido com energias verdadeiramente humanas, mas apenas com exatidão mecânica”.

Se colocarmos a natureza humana sob essa luz:

“todos os camponeses e artesãos poderiam ser elevados à condição de artistas, ou seja, homens que amam o seu trabalho em si mesmo, o tornam melhor através de seu gênio plástico e de sua habilidade inventiva. Deste modo, eles cultivam o intelecto, enobrecem seu caráter e exaltam e refinam seus prazeres.”

A oposição de Russel à prática educacional coercitiva estava ligada ao seu desejo de uma reconstrução radical da sociedade, “uma eliminação de todas as fontes de opressão, uma liberação das energias construtivas do homem, com um modo totalmente novo de conceber e regular as relações :

“ Em meio aos mitos e às histerias de ódios que se opõem, é difícil fazer a verdade atingir as massas das pessoas, ou mesmo espalhar o hábito de formar opiniões baseadas em evidências e não na paixão. No entanto, em última instância, é nestas coisas, e não em qualquer panacéia política, que as esperanças do mundo devem residir.”

sábado, 17 de outubro de 2009

PROBLEMAS DO CONHECIMENTO E DA LIBERDADE.


NOAM CHOMSKY

Mas a gratidão pode ser compartilhada por todos aqueles que valorizam a razão, a liberdade e a justiça, e que são cativados pela visão de Russell tem do “mundo que todos devemos buscar”:

“um mundo em que o espírito criativo está vivo, no qual a vida é uma aventura cheia de esperança e de alegria, baseada no impulso de construir e não no desejo de reter o que se possui ou de tomar o que outros possuem. Deve ser um mundo em que os afetos tenham livre curso, no qual o amor seja purgado do desejo de dominação e a crueldade e a inveja tenham sido dissipadas pela felicidade e pelo desenvolvimento sem entraves de todos os instintos que erguem a vida e a preenchem com os prazeres da mente.”


1) INTERPRETAR O MUNDO

Ele propôs que os limites do conhecimento humano são determinados pelas regras que limitam as hipóteses admissíveis, que poderiam ser concebidas como bastante restritivas . Trata-se de uma idéia perfeitamente inteligível.

A imagem de uma mente, inicialmente irrestrita, desencadeada livremente em direções arbitrárias, pode sugerir, em princípio , uma visão mais rica e esperançosa da liberdade e da criatividade humanas. Mas acho que essa conclusão está errada. Russel estava certo em intitular seus estudos em “ Human Knowledge : its scope and limits” (O conhecimento humano: seu escopo e limites). Os princípios da mente fornece os escopos e os limites da criatividade humana. Sem esses princípios, a compreensão científica e os atos criativos não seriam possíveis. Se todas as hipóteses são inicialmente equivalentes, então nenhuma compreensão científica pode ser atingida, pois não haverá meios de selecionar, dentro de um vasto arranjo, teorias compatíveis com nossa evidência empírica limitada e, por hipótese, igualmente acessíveis à mente.

Alguém que abandona todas as formas, todas as condições e restrições, e age de maneira aleatória e inteiramente à vontade, com certeza não está engajado em uma criação artística, seja lá o que ele possa estar fazendo. “O espírito da poesia, como todos os poderes vivos, deve necessariamente circunscrever-se a regras”
Coleridge escreveu : “talvez às leis de sua própria origem” Como Russel frequentemente expressava , “ se a verdadeira vida” do homem consiste “ em Arte e Pensamento e Amor, na criação e contemplação do belo e na compreensão científica do mundo” . Se isto é “a verdadeira glória do homem” , então são os princípios intrínsecos da mente que deveriam ser o objeto de nosso espanto e, se possível, das nossas investigações. Ao investigarmos algumas das mais conhecidas realizações da inteligência humana, o uso da linguagem, por exemplo, somos imediatamente tocados pelo caráter criativo delas, pelo caráter de criação livre dentro de um sistema de regras. Russel escreveu que “a concepção humanística considera uma criança como um jardineiro considera uma árvore jovem, isto é, como algo com uma certa natureza intrínseca, que se desenvolverá adquirindo uma forma admirável , uma vez conferido solo apropriado, ar e luz”.
Acho bastante justo dizer que é a concepção humanística do homem que tem avançado e conseguido ganhar substância à medida que descobrimos os ricos sistemas de estruturas , invariantes e princípios subjacentes às realizações humanas mais humildes.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

L'Amour Est un Oiseau Rebelle

L'Amour est un oiseau rebelle

Que nul ne peut apprivoiser

Et c'est bien en vain qu'on l'appelle,

S'il lui convient de refuser.


Rien n'y fait, menace ou prière,

L'un parle bien, l'autre se tait;

Et c'est l'autre que je préfère

Il n'a rien dit; mais il me tient.


L'Amour est un oiseau rebelle

L'Amour

Que nul ne peut apprivoiser

L'Amour

Et c'est bien en vain qu'on l'appelle

L'Amour

S'il lui convient de refuser

L'Amour


L'Amour est enfant de Bohême,

Il n'a jamais, jamais connu de loi,

Si tu ne m'aime pas, je t'aime,

Si je t'aime, prend garde à toi!

(Prends garde à toi)

Si tu ne m'aime pas si tu ne m'aimes pas je t'aime

(Prends garde à toi)

Mais si je t'aime si je t'aime prends garde à toi!


quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Só para raros

Em decorrência da fetidez que assola o país, só tenho vontade de escrever textos sórdidos, coléricos, cínicos, degradantes ou estufados de um humor cruel (...), “censurado”, ou só para cínicos , ou “só para fazer sorrir os desesperados”, ou até quem sabe , à maneira de Hesse: “só para raros”. Porque convenhamos, há pulhas em demasia. E enquanto não se resolve isso (...) não consigo escrever nada de coerente e agradável (...). A cólera pode ser sanada através de um texto escuro e licencioso, mas diante de uma realidade tão acabrunhada (...) me vem um texto de G.R. Urban citando Bérgson: não são somente as palavras que se extenuam, racham e, às vezes, “quebram sob a carga”, mas idéias também sofrem tensão e se desintegram ante a inibidora presença das palavras.

Odes maiores ao pai

imagem
I

(Largo Pensante)

Uns ventos te guardaram. Outros guardaram-me a mim. E aparentemente separados
Guardamo-nos os dois, enquanto os homens no tempo se devoram.
Será lícito guardarmo-nos assim?
Pai, este é um tempo de espera. Ouço que é preciso esperar
Uns nítidos dragões de primavera, mas à minha porta eles viveram sempre,
Claros gigantes, líquida semente no meu pouco de terra.
Este é um tempo de silêncio. Tocam-te apenas. E no gesto
Te empobrecem de afeto. No gesto te consomem.

Tocaram-te nas tardes, assim como tocaste
Adolescente, a superfície parada de umas águas? Tens ainda nas mãos
A pequena raiz, a fibra delicada que a si se construía em solidão?
Pai, assim somos tocados sempre.
Este é um tempo de cegueira. Os homens não se vêem. Sob as vestes
Um suor invisível toma corpo e na morte nosso corpo de medo
É que florece.

Mortos nos vemos. Mortos amamos. E de olhos fechados
Uns espaços de luz rompem a treva. Meu pai: Este é um tempo de treva.

II

Ah, essas dores! E o voltar contínuo ao silêncio das tardes!
Junto ao muro dos mortos o passeio se fazia longo. Estacávamos.
A tarde embobrecia de luz. O tempo galopava.
Vês? Tenho a alma pesada. Uma avidez no olhar
Antes ingênua, agora se fez grave. Há naquele campo a imutável paisagem:
As papoulas abertas, as ruas estreitas e uma grande e única alameda.
E datas, retratos. E súbito o ocre da terra sob os passos.
A mulher caminhava. Comprimia no peito a sua flor e de humildade
Era o olhar à procura do nome. Se tu visses depois que luminosa altivez
Se insinuava, quando voltava leve, sem o peso das dádivas.
E muitas passaram vagarosas. Umas lunares, com seus rostos aduncos.
Outras com as centelhas escondida dos sacrários.


III

Não é teu este canto porque as palavras se abriram sobre a mesa.
Se chegavas era em silêncio e tocavas as coisas
Com a leveza dos meninos arminando os altares. Uma rosa tardia
Mesmo assim desmanchava-se e tua presença na noite eu procurava.
Ninguém jamais nos via quando nos falávamos. As perguntas de sempre,
Os castiçais, o adro vazio da capela em frente. E as persianas fechadas,
Para que sal de fora não pousasse
Nas baixelas incríveis da memória. Aquele mar repetindo seu canto
E as vozes partindo teus cristais! Como te abrigavas do ruído das estradas
E os teus livros abertos, como se desfizeram naquelas areias!
Nem sei de onde me vêm estes musgos, açoites, esta fonte que é nova
Em minha boca. Nem sei dizer da morte o que te ouvi dizer nos ecos de umas noites.

Enquanto te celebro, as janelas do ocaso trazem risos.
E um hóspede atravessou incógnito teu jardim, afundou-se na nevoa
Cansou-se do teu hálito nas arestas, nas muradas, nos cálices, em mim
És presente como um vento que corre entre portas abertas.


IV

Na tua ausência, na casa o perfume das igrejas. O odor
Da castidade antiga dos incensos, reacendeu a alegria da infância
E aspirei contigo o perfume menos casto das cerejas. Na casa,
Um ruído de contas de rosário, mas eu só, meu pai, te vigiava.
Os ventos te seguiram. E próxima do teu passo, eu mesma era silêncio
A pedra. Impossível de abraço.
Uma torre contigo caminhava. Nos muros, nas escadas, refizeram ardis
Fibras trançadas, e aqueles pareciam mais largos, aquelas mais altas.
No teu andar, um quase nada definido. Tinhas o caminhar dos animais.
Espaçado e perdido. Respirei teu mundo movediço: Pai, não viste o sal da terra
Corroendo os pilares, as cruzes, as capelas ? E o sonho sobre a tua fonte
E mesmo uma crisálida pronta para ter asas ?
Abriram-se os portões, mas a casa era nova. A que foi nossa.
Tuas filhas te disseram que na noite, um homem e sua torre,
Com paciência guardadas, pouco a pouco a demoliram.


V

Sobrevivi à morte sucessiva das coisas do teu quarto.
Vi pela primeira vez a inútil simetria dos tapetes e o azul diluído
Azul-branco das paredes. E uma fissura de um verde anoitecido
Na moldura de prata. E nela o meu retrato adolescente e gasto.
E as gavetas fechadas. Dentro delas aquele todo silencioso e raro
Como um barco de asas. Que fome de tocar-te nos papéis antigos!
Que amor se fez em mim, multiforme e calado!
Que faces infinitas eu amei para guardar teu rosto primitivo!
Desce da noite um torpor singular, água sob o casco de um velho veleiro
Calcinado. Em mim, o grande limbo de lamento, de dor, e o medo de esquecer-te
De soltar estas âncoras e depois florir sem ao menos guardar tua ressonância.
Abraça-me. Um quase nada de luz pousou na tua mesa
E expandiu-se na cor como um pequeno prisma.

VI

Há tanto a te dizer agora! Meus olhos se gastaram
Procurando a palavra nas figuras, nos textos, nas estórias.
Era preciso viajar e levantada em renúncias redescobrir a morte
Além de seu sudário e suas tremuras. Quase nada aprendi.
De nada me lembrei.
Há talvez a memória de tatos, um sentir rarefeito, um ouvido inexato
Deitado em solidão sobre o teu peito. E adeuses ingênuos, calados de vitória
E aquele de fereza, de acerto, dissolvido em orgulho, ressuscitado
Vagamente em canto. E na manhã, o meu sonho passara e a minha voz
Não se erguera em poesia.

Será preciso esquecer o contorno de umas formas que vi: naves, portais
E o grande crisântemo sobre a faixa restrita do canteiro.
Através do gradil, no terraço do tempo te percebo.

E ainda que as janelas se fechem, meu pai, é certo que amanhece.
(publicado junto à crônica acima em Cascos & Carícias & outras crônicas , 1993)

sábado, 29 de agosto de 2009

Senhora

Los rios, las cadenas, la cárcel de si mesma (...)

desconheces quase toda tua totalidade, que contornos havia aos quinze anos aos vinte, lá dentro do ventre, que águas, plasma e sangue, que rio te contornava? Que geografia se desenhava no teu rosto, e o rosto daquela que te carregava na barriga, como era ? como te carregava essa que habitavas? Como eras antes que o amor surgisse entre aquelas duas almas, pai-mãe, quando ele era jovem e se perguntava que mulher se deitaria sob seu grande corpo, que fúria de palavras lhe viria à boca, amada, loca, luz que caminhou baça sob as águas, então eras tu? Sabes, às vezes penso que deves ter um homem jovem porque

sim

porque sabes muitas coisas, essas da alma, e um saber demasiado
oscurece el alma
isso mesmo, e porisso talvez alguém de vinte, vinte e cinco, meio diminuído, sensualão
Rimbaud tinha dezenove quando escreveu aquilo é, mas é raro, moçoilos são fracotes no UMM, e então continuando,

um de vinte, vinte e cinco talvez,
duro e vigoroso, um que não sucumba diante do
mosaico intumescido de cores vivas onde desenhas a vida, e num canto lá em cima desse grande mosaico um negrume de vísceras , um desespero só teu, esse negrume teu

que busca

es que busco La Cara, La Oscura Cara
bobagem. então continuando, esse muito jovem há de sorrir diante do teu discurso , te põe de imediato a mão nas tetas e diz teu Deus sou eu, (...), já me encontraste, e se ainda continuares com tuas pretensas justas palavras e tua cara de pedra quando falas na busca, esse muito jovem há de te mostrar já sei. uma bela caceta
isso. e delicado mas firme te faz abrir as pernas e

repete

sei. teu Deus sou eu.
acertaste.(...)
então sabes. escolhe alguém que não te leve a sério, porque
el alma de (...) se oscurece por lo mucho que sabe (...) se eras homem sabias desse turvo no peito, desse grande desconhecimento que de tão grande se parece a sabedoria, de estar presente no mundo sabendo que há um pai eternamente ausente.

(...) teu pai está morrendo, te chama